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Abordando imparcialmente o lado tenebroso

Imagem - Representação alegórica de Buda e as tentações de Mara. No Budismo, Mara representa o Lucifer interior, ou o treinador psicológico.

Diante dos desejos e sentimentos proibidos, o primeiro impulso das pessoas é sufocá-los, na vã ilusão de se livrarem assim do incômodo. Por desconhecimento, costumamos acreditar que ignorar as emoções ou "fazer força para não sentir aquilo" eliminará o problema. A experiência mostra o contrário.

 

Qualquer grupo social possui suas proibições, suas regras de conduta. Nem todos os impulsos instintivos são aceitos e alguns são furiosamente condenados pela sociedade. Normalmente, as regras envolvem principalmente a questão sexual: os tabus sexuais costumam ser os mais radicais e rígidos. Em certos casos, quebrar tais tabus significa perder a vida, ser condenado à tortura e à morte.

 

Neste ínterim, é mais que natural que a maior parte dos desejos reprimidos (mas nem de longe todos) envolvam, de um modo ou de outro, a questão sexual. Os tabus sexuais são inúmeros e relacionam-se diretamente com uma série de sofrimentos emocionais.

 

Sendo assim, nos círculos gnósticos não poderia ser diferente, existem também as proibições, que possuem suas razões de ser e suas funções sociais, tendo surgido para o bem coletivo. Entretanto, como somos pessoas comuns, tomamos tais proibições inconscientemente e, identificados com e a partir delas, criamos ou reforçamos vários defeitos: culpas, medos, resistências. Não nos damos conta de que o ego se disfarça de virtudes e assume aparências santíssimas.

 

Movidos por tais enganos, muitos estudantes enveredaram pelo caminho da repressão dos desejos, acreditando que estavam trilhando o verdadeiro caminho da Morte. Acreditaram que, sufocando o que sentiam, estavam morrendo, e não se deram conta de que estavam tão somente polindo a personalidade e fortificando egos de resistência.

 

O problema não são as proibições, as quais possuem sua razão de ser. O problema é a forma como tomamos as proibições. Se determinada atitude é errada ou prejudicial, não devemos tomá-la. Mas isso não significa que devamos reprimir as emoções correspondentes (e nem que devamos cultivá-las ou estimulá-las).

 

Reprimir ou explodir? Segurar ou deixar a emoção tomar conta? Eis o dilema dos estudantes gnósticos. Deixar a emoção tomar conta, mantendo-se passivo e não fazendo nada, é o meio mais rápido para a auto-destruição. Viciar-se em entorpecer a vontade, deixando-se levar pela fascinação, é atirar-se de cabeça no precipício da loucura. Mas tentar reprimir é inútil e também perigoso. O que fazer então? Compreender!

 

No que se refere às proibições, temos que compreender ambos os lados do problema: tanto o impulso de "infringir a lei", como o impulso de obedecê-la. O impulso de acatar as proibições é um ego e o impulso de desobedecê-las é outro ego. Ambos são egos, são defeitos! Por isso diz o V.M.S. que devemos compreendê-los sem absolvê-los e nem condená-los, temos que simplesmente compreendê-los, sem julgamento moral algum, ainda que a moral tenha seu sentido e sua razão de ser na vida social.

 

Cada "eu" possui seu sentido, sua lógica própria inerente, seu significado. Tentar analisá-lo a partir de um preceito moral, ainda que gnóstico, é distorcer a análise, sabotar a própria compreensão. Uma moral religiosa qualquer, por mais imprescindível que seja, serve aos egos santarrões que se vestem com a túnica do Cristo.

 

Não fornicar, não adulterar, não xingar, não mentir, não roubar, não ferir o próximo são virtudes maravilhosas, mas deixar que o ego as comande é adormecer ainda mais a consciência e nutrir elementos psíquicos enganosos, que gostam de aparentar santidade, martírio, altruísmo. A moral é um produto do Ego e quem é moralista está longe de morrer.

 

Não será com repressões moralistas que se conseguirá a Morte. Quem quer a Morte de verdade, deve ser capaz de observar sem julgamento e sem resistências morais os pecados mais feios, vergonhosos e abomináveis. Deve-se observar e enxergar tais defeitos imparcialmente, sem culpas e nem auto-depreciações. Culpa e auto-depreciação são egos disfarçados de virtudes.

 

O V.M.S. fala de auto-crítica. A verdadeira crítica de si mesmo é imparcial. É tão grave desculpar e absolver os defeitos, quanto condená-los sem compreensão. Após a compreensão, haverá sempre a conclusão, espontânea e natural. É na conclusão que estarão os resultados da análise, do julgamento. A condenação de um defeito é posterior ao seu julgamento e não anterior, surge quando finalmente compreendemos que aquele desejo, que antes nos pareceu tão agradável e maravilhoso, não serve para nada além de prejudicar e destruir a nossa vida. Mas não chegaremos a tal compreensão se sabotarmos a própria observação ou análise de antemão.

 

Então, vejam que curioso: o moralismo religioso (gnóstico ou não), que tanto detesta e quer banir os desejos pecaminosos da alma, os preserva da Morte e nos impede de matá-los, pois não permite que os enxerguemos. O moralismo religioso é aliado dos pecados!

 

O conceito de pecado é faca de dois gumes: serve para orientar a conduta, mas pode também servir para criar "eus" que ficam atormentando o pecador com a culpa. Os atormentadores egos de culpa não são nada dignos e nem decentes, são meros defeitos disfarçados de virtudes, demônios interiores sabotadores da Morte.

 

A consciência possui um poder desinfectante e regulador que nos possibilita deixar que um desejo aflore sem que nos possua e nos domine. Para tanto, basta não nos identificarmos. Não precisamos temer a possessão. Se não nos identificamos com o desejo e o observamos, extrairemos dele a compreensão e podemos deixá-lo aflorar livremente sem nenhum problema. O que importa é aprender a separar-se do desejo, observá-lo de fora, como um elemento estranho. O que provoca a possessão não é o afloramento do desejo, mas sim a identificação. É a identificação que deve ser evitada e é nesse sentido que temos que nos disciplinar com rigor.

 

Tenho falado em análise, mas a simples auto-observação já é um processo analítico e amplia a compreensão progressivamente, dia após dia. A observação de si mesmo deve ser absolutamente livre de julgamentos morais. Se você tem desejos feios e condenáveis, dos quais se envergonha, observe-os sem julgamento moral, apenas tentando compreendê-los. Observe de forma imparcial e crítica até mesmo os impulsos de culpa, auto-depreciação, auto-condenação, moralismos etc. Que nada escape de vosso crivo analítico dissolvedor.

 

Suponhamos que você tenha um desejo bem ridículo, daqueles que todo mundo condenaria se soubesse, e que você o esconda com unhas e dentes do olhar de todos. Você o satisfaz em segredo, sem que ninguém veja, e se sente culpado, imprestável, inútil, condenável e não sei que mais. Pois bem, digo-lhe que tais sentimentos negativos, que conflitam com o desejo em questão, são emoções inferiores e não superiores, não são arrependimentos e não te livrarão desse pecado indesejável. Se quiser se livrar, terá que, antes de mais nada, ser capaz de observá-lo de forma imparcial. Só assim poderá começar a enxergar de fato o que é aquilo. Simplesmente condenar-se a priori é guiar-se pela moral convencional, a qual é inútil para quem quer ir além de si mesmo.

 

Veja bem: não estou afirmando que devamos gostar dos defeitos, cultivá-los ou alimentá-los. O que estou afirmando é que temos que ser capazes de observá-los sem preconceitos morais para compreendê-los, o que é totalmente diferente.

 

Quando um mestre desperto condena atitudes, desejos e sentimentos, o faz a posteriori, pois está expondo o resultado de suas experiências. O mestre sabe que a fornicação, por exemplo, é altamente prejudicial e expõe tal fato, de forma crua, clara e contundente. Mas isso não significa que você ou eu tenhamos compreendido verdadeiramente tais prejuízos. E se não os compreendemos, mas nos opomos a ela gratuitamente, estaremos simplesmente nos auto-enganando. Se você quer compreender os prejuízos da fornicação, observe-os em si mesmo, imparcialmente, e os verá. Quem observa a sua própria fornicação (e não a dos outros!) em suas múltiplas manifestações de forma realmente imparcial, inevitavelmente concluirá que é algo altamente prejudicial. Mas o mestre afirmou isso apenas para a sua informação e não para que você forjasse um problema e criasse um "eu" de culpa ou medo. A culpa não é dele e sim sua, pois foi você que criou mais um problema para a sua sofrida vida.

 

Comumente confundimos sentimentos negativos como culpa, medo e auto-condenação com o arrependimento. Achamos que temos que sentir culpa para nos arrependermos. Achamos até que a culpa vem de Deus! A prova de que estamos equivocados é que podemos sentir culpa por vários anos sem nos arrependermos do ato que nos faz sentir culpados, pois se realmente nos arrependêssemos, não tornaríamos a cometê-lo.

 

Então, aprendamos a tomar nossos pecados feios e vergonhosos tal como são, sem culpa e nem tampouco justificativas. Todos fizemos coisas feias ao longo da vida, nessa ou em outras existências, e não adianta nada identificar-se com isso e ficar se lamentando. O que importa é mudar, dar outra oitava na existência, elevar nosso nível de Ser. Os estudantes gnósticos são humanos e também possuem seus monstros no armário e não há nada demais nisso, a não ser o fato de ficarmos passivos e fugirmos do problema por toda a vida. Tudo bem, erramos, mas e daí?

 

Observe calmamente a sua podridão interior, com coragem. Veja toda a imundície, reconheça-a, mas sem parcialismos. Não seja contra e nem a favor de um pecado, simplesmente conheça-o. Eduque sua vontade nesse sentido.

 

Você não é só lixo, existem coisas boas dentro de você, ainda que você não esteja consciente delas. Então porque enveredar pelo caminho da auto-depreciação?

 

Uma coisa é achar que um defeito é maléfico; outra coisa é compreender de fato que um defeito é maléfico. Na Morte do Ego, não se "acha" nada, se compreende. Não se acredita que o Ego seja isso ou aquilo, se sabe, por experiência direta. Podemos acreditar ou supor que um comportamento seja bom ou ruim, pecaminoso ou virtuoso, mas isso não significa que tenhamos plena consciência disso.

 

Conscientizar-se não é acreditar, nem supor e nem "achar". Conscientizar-se é experienciar diretamente. Temos que experienciar os pecados tal como são e não o conseguiremos se qualquer crivo tendencioso, favorável ou desfavorável, estiver condicionando a observação.

 

Não tenha medo de enxergar a realidade dos seus desejos, é a verdade que te libertará. Vá até ela de braços abertos.

 

Por mais vergonhoso e reprovável que seja um defeito, temos que observá-lo e analisá-lo de forma imparcial, sem cair no desespero. Desesperar-se diante de um defeito ou pecado terrível é tornar-se incapaz de abordá-lo objetivamente. Se queremos a compreensão, temos que abordar os pecados objetivamente e se os queremos abordar objetivamente, temos que ser absolutamente imparciais, ainda que o comportamento a ser estudado esteja contra os princípios mais sagrados em que acreditamos. Somente a abordagem imparcial nos permitirá compreender de verdade todos os prejuízos do defeito. Ao contrário do que pode parecer, a condenação antecipada de um defeito é um mecanismo engenhoso para escondê-lo de nossa consciência. Quem condena um defeito antes de observá-lo e examiná-lo, está protegendo-o do julgamento objetivo e, portanto, da Morte. É assim que evitamos tomar consciência e nos recusamos a morrer de verdade.

 

Temos medo da condenação, medo do inferno, medo do que somos. Tais medos se devem a crenças negativas que forjamos sobre nós mesmos, a partir da experiência de vida. Temos que dissolvê-las. Se, por um lado, somos criaturas perigosas e imprestáveis, que se encontram em um estado horrível, por outro lado, temos muitas possibilidades e anelos. Temos um Ser Interior Profundo e Real, do qual emana tudo o que é divino em nós. Focarmos exclusivamente no que não presta é ignorá-lO. Temos que recordar que temos Deus conosco, se quisermos vencer a escuridão do pecado.

Fonte:   http://dwere.blogspot.com/2011/04/abordando-imparcialmente-o-lado.html

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